Sala 15-B, anfiteatro – Escrita Criativa

- Você cuida de mim?

- Claro! Do que você precisa?

- Agora só de você. – ela disse isso sorrindo. Eu só cheguei a acreditar no que ela estava dizendo quando os meus olhos se encontraram com os dela. Naquele momento, a vontade que eu tive de beijá-la era tão grande que nem prestei muita atenção no resto.

- Tá. Então o que a gente faz agora? (olhando nos olhos, coração palpitando)

- Não sei. Eu só quero ficar perto de você. (ela chega mais perto, ainda olhando nos meus olhos, o coração também palpitando)

- Eu também…  (chego mais perto…)

___

- AH, PROFESSOR! Mais uma história de amor? Lá vem merda! Já não chega a indústria cinematográfica lançar uma merda dessas, a cada dois meses? Não quero isso! Na verdade, eu quero criar uma história real, em que as coisas acabam e o amor é só uma maneira de passar o tempo. Eu quero vísceras e a realidade escrota e desconexa do mundo. EU QUERO O APOCALIPSE! Eu quero sexo, drogas, rock and roll e uma boa cama pra ressaca. Eu quero enfiar um contexto tão loco nessa foto que a maioria das pessoas não mencionaria o tamanho da minha imaginação. Um oceano de idéias sem fundo. Enorme, azul, gelado e espesso…

- Hum…

- É! Eu queria poder criar um clássico alternativo, Cult, conceituado pelos grandes e usado como modelo pelos pequenos e desconhecidos. E  para isso, eu quero poder extrair a maior quantidade de idéias loucas da minha cabeça e colocá-las num papel branco. Tudo isso, em cima dessa foto. O branco do papel é a minha…

- OOWWW! Calma ai! Apertar o pause ai meu querido. É só um abraço numa foto. Uma coisa carinhosa. Pra quê toda essa pretensão? Se o tema é simples, o resto também será. Verossimilhança lembra?

- Não professor, o senhor não entendeu. Eu quero poder dizer coisas sobre essa imagem que nem o senhor ousaria em pensar…

- Sei… Mas o que exatamente você gostaria de falar, envolvendo a foto em questão?

- Não sei. Mas coisas grandes e obtusas!

- Entendo… Tudo isso significa que você ainda não sabe sobre o que quer falar, certo?…

Caio ficou parado, pensando numa resposta irônica e rebuscada, mas não conseguiu bolar nada. E o professor pensava se realmente valia à pena ouvir essas merdas pelo salário que ele ganhava.

- Meus alunos! Eu vou ser sincero com vocês – ele sentou-se na bancada, de frente para todos, na sala anfiteatro 15-B, do prédio de Letras da faculdade – não posso ensiná-los. Não dá! Criação, imaginação e bons argumentos são coisas que vocês mesmos têm de bolar. O que eu posso fazer é ensiná-los a não viajar muito na maionese, dando um sentido, seja ele qual for, ao texto que vocês escreverão… Todos vocês são bons naquilo que escrevem, mas todos possuem essa mesma mania do Caio (ele se afundou um pouco mais na carteira quando o professor disse isso), essa mania de grandeza por temas FODÁSTICOS! Não é assim que funciona. Vocês precisam escrever sobre o que gostam, sobre o que são apaixonados. Coisas assim é que fazem mais sentido e são boas de se ler. Entendem?

A sala ficou em silêncio. Alguns alunos olharão uns para os outros com cara de dúvida.

- Já deu o horário de hoje, então finito. Mas pensem no que eu falei. Às vezes a simplicidade do tema é algo que valoriza ainda mais a história. E tragam algo esboço para a aula que vem…

21:50. Quinta feira. Setembro. 1990. Os alunos levantaram e foram todos para próxima aula, pensando no que o professor dissera. Batia uma chuva forte na janela da sala, e o tempo estava nublado e triste. Quando o último aluno saiu e fechou a porta, o professor sentou na primeira fileira e ficou olhando a foto por um momento…

Tanta coisa tinha naquela foto, tanta coisa transparecia e emanava dela, tanto poderia ser escrito. E os alunos estavam se preocupando com a repercussão daquilo que poderia ser escrito sobre ela. Não com o tema em si. “Uma pena” pensava o professor. Era uma bela foto.

TOC TOC!  - alguém batia na porta:

- João! Como vai? Mas de novo essa aula da foto?

- É, por quê?

- Não. Nada. Só acho estranho você ficar usando sempre o mesmo exemplo. Escuta, vamos tomar alguma coisa? Comer umas besteirinhas?

- Vamo, mas eu tô precisando de uma dose de whisky com gelo. E algo pra acompanhar.

- Nossa! Dia difícil hein…

- Um pouco…

João tirou a foto que estava presa no quadro negro, enrolou-a e guardou dentro da gaveta. Recolheu as coisas da mesa, colocou-as na mala e foi com Valéria para o bar de sempre.

O que ninguém sabia, nem Caio, nem os outros alunos, nem Valéria – companheira de magistrado na faculdade a mais de dez anos– era que aquele de costas na foto era João. Aquela foto foi tirada por um amigo seu, enquanto João dizia adeus para uma garota, Janaína, com quem passou um feriado e nunca mais encontrou. Foi nessa viagem que João se apaixonou pela primeira vez. Tinha dezessete anos e a garota dezesseis. Foi fogo de palha, carinhoso, quente e tranqüilo.

Aqueles dias no campo mudaram a vida de João de tal forma, que mesmo o melhor dos textos não poderia alcançar o significado daquela foto. Apesar disso, ele a mostrava, só para relembrar o significado do amor que ainda sentia por Janaína. Simples assim.

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